Pentagrama

Nada que assuste quem conheça ou modifique quem não conheça. nadoghelli@yahoo.com

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14/12/04
 
(...)

Não se prenda a ouvir
Não se limite à fala
Sou silêncio na voz,
Meu olhar não cala

Mas não busque entender
Nada podes me dar
Apenas sê
O que quero em você
Tu nem sabes que há

Tens, no escuro de ti,
Imanente um fulgor
Que se mostra no ato
Que me mostra de fato
O hiato de ti

Eis aqui a razão
Do eterno porvir
Que (talvez mesmo em vão)
Tenho esperança em ver:
Que eu mergulhe em você
E que saibas fluir


29/06/04
 
Quando a tristeza falha...

Sim, fico em sua frente um idiota.
Não que eu seja sempre assim; De fato,
Se falo a ti me ouço qual um pato,
Minhas mãos tremem, minha cor desbota.

Ao que parece minh´alma comporta,
Ativo, algum dispositivo ingrato
Que à mínima esperança de contato
Traz pra garganta minha artéria aorta,

De modo que posso ser demitido,
Pois cedo ou tarde, a carne [é fraca e] peca
E arriscarei tomar algum caminho

Sem nem saber se faz, pra ti, sentido;
Então te peço com muito carinho:
Não entre mais nesta biblioteca.

16/10/03
 
Doei-me doeu
Com ardor
A dor suja
E sujeito à
Mente minto
A dita
Dor
Doa a quem doar

10/09/03
 
Minha mente é como um bom restaurante
Desses caros, mas cheios
De ratos.
Ratos que ninguém vê porque o gerente esconde
Tão bem que nem o melhor dedetizador pode encontrar.
Ratos que se banham nas sopas
Antes que cheguem ao cliente.
Que infestam de forma invisível o [requintado] ambiente
Ratos que comem pão com veneno e morrem
(apodrecendo dentro do armário e entre as prateleiras da despensa)
E cuja matéria morta, infecta, alimenta outros ratos.
Ratos que nem pela obviedade de sua existência
diminuem o preço da comida ou a exigência
Aos cozinheiros.
Ratos que se reproduzem
Como ratos.

06/08/03
 
Dizem que a cada dia da semana
Eu sou uma pessoa diferente. Isto não
É verdade.
Sou sempre os mesmos.

05/05/03
 


11/02/03
 
Pesos e medidas

Beleza crua, se não minto, digo:
Olhar pra ti é [me] perder sem luta;
Ao ver-te desfilar como uma bruta
E sensual afronta à minha libido

Me sinto até a oferecer perigo.
Faz-me pensar que és plena e resoluta,
Por mais que seja uma moral fajuta,
Esta que trazes, tão fiel, contigo.

Mas que me importa o que te importa tanto?
O que me falta é o gosto da tua boca,
É ter-te a rebolar como uma louca;

Causar-te dor ao provar teu conforto
E, depois de exaurido meu encanto,
Deitar em ti meu peso quase morto.


21/01/03
 
Resistir pra quê,
Se me pesa o desconforto entre os acertos?

Resistir por quem,
Se cada porta aberta me é um poço?

Até o fim?
São 60 fins por minuto!

Me chamem quando for sério.
Até lá, deixem-me
Com meus demônios.

Tranquem a porta ao sair.


15/01/03
 
Mata-se por papel
Beija-se sem paixão
Homens morrem no céu
Deuses andam no chão

Bombas em Israel
Fogos no reveillon
Muitos bebendo fel
Clones em produção

Pouso em arranha-céu
Fome, televisão,
Drogas formam quartel
Sexo é profissão

E nada do cometa...

16/12/02
 
Eis que me surge nume no percurso
Trazendo em si bifurcação latente.
Extático, profético, descrente
Parei e pus-me a ouvi-la em seu discurso.

Mostrou que à direção de cada pulso
Eu provaria vida diferente.
De um lado paz, sossego, morna mente.
Do outro ardor, paixão, temor, impulso...

Não demorei a decidir o rumo
Por conhecer, das duas, uma reta
E nela, noites ter perdido insone.

O gosto do meu erro [só] consumo.
Apostei tudo na resposta certa,
Agora tenho sono, frio e fome.

18/10/02
 
Contar seguramente com a presença
De quem presenciou cada momento,
Dos quais se alimentou o pensamento,
Mordido e mastigado em sua ausência.

Viver, noite após noite, a sorte intensa
De ter à cama, como um complemento,
Quem se encaixe em perfeito movimento
Enquanto goza de sua existência.

Dormir, nos dias frios, abraçados
Nos quentes, rir da vida na piscina,
De mãos dadas trilhar qualquer caminho,

Traçar planos futuros lado a lado.
Confesso: Tudo isso me fascina,
Mas acho que nasci pra ser sozinho.


17/10/02
 
O som da vida ecoa sem fim
Na partitura que eu mesmo traço,
Mas se cupido mirar em mim,
Falho o refrão e perco o compasso.

Tantos esforços centrado em ser
Certo, normal, calmo, comedido,
Que erro por jugo sem ter por quê,
Erro ao querer parecer comigo.

Cego, persigo minha razão
Neste brinquedo de gato e rato,
Enquanto meu tolo coração
Vai me fazendo de gato e sapato.


06/09/02
 
Mudei e hoje deixo exposto ao vento
O que há muito tempo escondia
E o que, antes, causava alegria,
Muitas vezes agora traz tormento.

Trago essa dúvida no pensamento
(Após mudar mais do que poderia):
Se já não sou eu mesmo há muito tempo
Ou me transformo em mim a cada dia.

Repasso a vida, então, de onde começa,
Reestruturo a tese ponto a ponto
E novamente ao fim me surpreendo,

Pois caio sempre na razão inversa.
Como posso existir por mim se quanto
Mais me conheço, menos me entendo?

14/08/02
 
Busquei caminhos, portas, sacrifícios
Na vida
Sem achar um pedaço a mais
Do labirinto.


30/07/02
 
Neutron

Existe um ponto em que a gravidade
parece não surtir nenhum efeito
E lá, tirando o que já estava feito,
É sempre inútil buscar novidade.

Nunca se sabe se é cedo ou tarde,
Fica bem claro o vazio perfeito
E confinado nesse escuro leito
Faz-se bem vinda até uma tempestade.

O estranho mesmo é que por mais que tenha
Muitas pessoas lá, ao mesmo tempo,
Neste lugar sempre se está sozinho

Não adianta se guiar ao vento
E quanto menos em sair se atenha,
Saiu sem nem sequer buscar caminho.

18/06/02
 
A idéia de ser rei subiu-lhe à mente
Ao sentar-se no trono àquele instante.
Sentiu na mão poder inebriante
Que todo rei despreparado sente

Organizou matança incongruente,
Ficou-se amigo a um nobre meliante,
Deliciou-lhe a imagem de um infante
A espasmar-se à forca lentamente.

Seu ilusório reino nesta era
Passou miséria, fome, guerra e praga,
Crias da incompetência do farsante

Que se pensou, tronado, importante
E acabou somente tal quimera
Quando saiu do trono e deu descarga.

13/06/02
 
Basta a caneta, o papel e começo
A escrever, em transe, a poesia.
Nem sei se é mesmo o que eu gostaria,
Mas sem escapatória fecho o verso.

E a cada decassílabo impresso
Um novo ciclo se reinicia
Em que as palavras buscam serventia
Então, fraterno, uma a uma meço

E no final da folha, quando encaixo
Cada palavra em seu lugar, duvido
Que o verso eu que tenha escrito todo,

Procuro em volta algum fantasma bobo
Pois nessas horas quase sempre acho
Que estavam sussurando ao meu ouvido.

20/05/02
 
Anjo de Clara luz que em noite triste
Acalma minha vida com esperança
E co'a esperteza ingênua de criança
Me faz ver que o amor ainda existe

Se aproximando do meu corpo. E lança
Olhar que mesmo que eu não queira insiste
Em desarmar minha força que desiste,
Fazendo arder em mim a intemperança.

E vem pedir que eu te faça um soneto,
Como se nem marcasse meu caminho,
Como se fosse alguém que eu não venero

E que não sabe que preciso e quero,
Neste meu universo branco e preto,
Do gosto que tua boca tem de vinho.

 
Apnéia

Penso em você e só lembro de morte,
Minha alma dói em cálido lamento,
Me some a paz enquanto sou levado
Pelos demônios ao puro tormento.

Por que emana esse calor medonho
Que modifica o ser em que existo?
Não me consome, nem me deixa vivo,
Mas dilacera a carne que eu visto.

Tento tirar em vão da minha mente
O que gravado foi, à quente ferro
Mas o teu gosto amargo em minha boca

Só me permite um derradeiro berro.
Quero que volte pra de onde veio:
QUERO QUE VÁ DE VOLTA PRO INFERNO!


 
Vício

Venha provar se sou como imagina
E me levar a um ecstasy extremo,
Deixe-me ser seu vício, seu veneno.
Faz do meu corpo sua cocaína.

Teu pensamento à noite me ilumina
E mesmo a Lua com seu brilho pleno,
Que antes agia em mim como morfina,
Já não consegue me deixar sereno.

Mas não se entrega e permanece calma
E isso me fere e me coloca à beira
De uma loucura, uma esperança,

Uma certeza (quase verdadeira)
De te encontrar, nem que venda minha alma
Ou que pra isso leve a vida inteira.



 
A Chamada Teoria do Foda-se

Foda-se o céu e também essa Terra,
Foda-se tudo o que o homem faz.
Foda-se a morte e também a guerra,
Mas não se esqueça, que se foda a paz.

Enquanto escuto, que se foda o surdo
E que se foda a hora de ir embora.
Eu quero mais é que se foda tudo,
Eu quero mais é que se foda agora.

E que se foda tudo que é vivo
E que se foda o que ainda vai nascer
E que se foda você que está lendo

E que já sabe, um dia vai morrer
E que se foda este soneto chulo
Porque a vida é feita pra viver.


 
Mistura Fina

Cada pensar que tive nesses anos
Tiveram base e forma em teu juízo
E até fetiches, taras, doces planos,
Em sua alma foram refletidos

Nossas idéias se complementando
E nossos corpos sempre mais unidos
Pela cumplicidade sob os panos
Não nos deixou ver o quanto envolvidos

Estávamos e assim, num nevoeiro
De cheiro, brigas, risos, indecência,
Não pude distinguir teu ser do meu.

Erramos muito, no caminho inteiro
E ao forçar-te seguir minhas exigências
Me confundi, pensei que fosses eu.


 
É tanto o amor que tenho no meu peito
Que até me espanta a dor que tanto sinto.
Com tanto amor é pra viver sorrindo,
Mas muitas noites sofro no meu leito.

Olho pras folha num rio caindo
E acho o mundo todo tão perfeito,
Como criado só pra mim, em preito
E sinto a dor de quem está partindo.

A fim de compreender tal sentimento
Subi montanhas, despenquei de encostas
Cruzei fronteiras ao sabor do vento

Provei da vida o sal e o açúcar
E acabo aqui de encontrar a resposta:
É tanto amor que, às vezes, me machuca.


 
Gêmeos

De que me vale sentir alegria
Se em outras horas sei que estarei triste?
Não que esta seja a minha vontade,
Mas a verdade é que a tristeza existe.

Também há horas em que a dor é grande
E contra meu querer a raiva insiste
Em me levar da Terra para o Inferno,
Mas felizmente a alegria existe.

Então eu vivo entre um momento e outro
E provo a dor, e experimento o riso.
Às vezes sinto que estou quase morto,

Às vezes penso que sou quase vivo
Mas quando choro, queimo em agonia
E quando rio sinto o paraíso.


16/05/02
 
Pentagrama

Um dia hei de escrever um texto leve,
Que seja a essência da tranqüilidade,
Livre de ódio, amor, paixão, vaidade;
Que seja um som melodioso e breve.

Tão despretensioso quanto o reggae
E com o gosto bom da liberdade,
Que lembre o Pôr-do-Sol em minha cidade
Quando a estrela mãe no mar imerge.

E cada vez que este texto for lido,
Pã tocará uma calma toada
E então gnomos, ninfas, faunos, fadas

Dançarão , rindo, música tão boa
Enquanto a grande Deusa os abençoa.
E saberei que estou em paz comigo.